sábado, 20 de setembro de 2008

Historinha

Não gosto de narrativas. Não sei contar histórias, mas hoje conheci um moleque que me puxou o pensamento pra junto da meninice do meu pai, queria contar uma bela história. Tem uma meia hora que o conheci, a coceira nas mãos me fez escrever. Não sei contar histórias.

Os ossos aparentes por todo o corpo, magro. Muito magro, mas sadio. Os olhos pretos e a pele morena. Só faltava nadar na enxurrada. Jessé, o menino era Jessé.

Mil novecentos e sessenta, uma pequena e interiorana cidade, casas caiadas e janelas e portas de madeira. Um estilingüe no embornal, pés no chão e os olhos numa viagem espetacular. O terror dos pardais, curiangos, pintassilgos, canarinhos e qualquer bicho que tenha penas e saia do chão. Com poucos vinténs no bolso a diversão se fazia garantida. O caramelo, a broa de milho, a bala de goma colorida e as jujubas, todas compradas na vendinha da esquina com o dinheiro da meninada, dinheiro afanado dos porquinhos dos avós, chacoalhados até que parissem qualquer trocado, presente de aniversário, natal ou o que quer que seja, poupado ao extremo pra fazer fartura.

O cheiro do mato queimado e do feijão do fim da tarde, do jantar da mineirada lá pelas quatro. Já escuro, a dama-da-noite embalava os casais no jardim da igreja. O moleque corria entre os bancos e cutucava as belas moças. Peralta e insensato como a maioria, um espelho da molecada que viu e ouviu Beatles, soube da guerra do Vietnã e foi a mais revolucionária e inovadora.

Essa nostalgia do que não vivi me incomoda, é um sentimento de não sei o quê. Nunca quis ter vivido nessa época, mas fico imaginando como tudo foi, e o que foi, foi mais devagar do que hoje é.

Um comentário:

João Gabriel Rodrigues e Figueiredo disse...

Cara! Foda. Não sabe contar história? Ah! Sabe! Excelente. Rico em detalhes. Realmente queria ter vivido minha adolescência nos anos 60. Sempre fui apaixonado pela nostalgia. O protesto dos hippies americanos, que cantavam vivas em meio à guerra. A revolução dos tchecos marxistas. A tropicália brasileira que cantava um ideal de liberdade ante o despotismo dos estúpidos militares.

Belos tempos idos.

Precisamos é mudar o rumo das coisas. Nossa história não pode ser marcada pela escuridão, intelectual e espiritual. Nós podemos mudar. A partir das singelas coisas.

Um abraço,

João Gabriel Rodrigues e Figueiredo.